Jean-Yves Mollier

maio 8, 2009

O francês Jean-Yves Mollier, do Centro de História Cultural das Sociedades Contemporâneas/Universidade de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines, é um dos principais nomes quando se fala nas pesquisas sobre o livro, edição e leitura, do século XV até os dias de hoje. Autor de mais de dez livros sobre o tema, Mollier retorna ao Brasil para participar do II Seminário Brasileiro Livro e História Editorial (Lihed), que acontece na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Nitéroi, na próxima semana, onde faz a conferência de abertura. Participa também dos enventos que precedem o Lihed, como o Diálogo Brasil-França: Livro e Leitura, teorias e práticas, na próxima segunda, 11 de maio, na Biblioteca Nacional, e do Colóquio Internacional: Arquivos, Memória Editorial e História da Vida Literária, nos dias 12 e 13, na Academia Brasileira de Letras.

Entre as pesquisas que desenvolve, Mollier vai abordar, no Brasil, a relação autor-editor na correspondência da editora Calmann-Lévy no século XIX, um balanço dos estudos realizados na França sobre livro e leitura a partir dos anos 1950 até hoje e situação da leitura e seu público no mundo contemporêneo. O francês aproveita a oportunidade para lançar, pela Edusp, O camelô, tradução de seu livro Le camelot e la rue, figura essencial da literatura de rua na França, no fim do século XIX, no mundo árabe-mulçumano, na África hoje em dia e mesmo no Nordeste, com os cordelistas. Por aqui, já saíram Poder, nação e edição (Anna Blume, 2006), organizado em conjunto com Eliana Dutra, reunião de ensaios apresentados no colóquio homônimo, realizado no Departamento de História da UFMG em 2003, que abordam o papel dos impressos na construção da vida política entre os séculos XVIII e XX, na Europa e nas Américas; e A leitura e seu público no mundo contemporâneoEnsaios sobre História Cultural (Autêntica, 2008), que trata da cultura do material impresso na Europa após 1760, e de como ele passa de uma atividade reservada a poucos para um lazer compartilhado por um número bem maior de leitores, no que o autor chama de “lento surgimento de uma cultura de massa”, primeiro na Grã-Bretanha e na França, por volta de 1880, acelerado pelas revoluções escolar e  industrial, que deram origem ao romance-folhetim, o manual escolar, o dicionário, o livro de divulgação de conhecimentos. (Leia a introdução do livro).

Leia a entrevista de Mollier, concedida um pouco antes de embarcar ao Brasil, onde participa também, após o II Lihed, de conferências em Belo Horizonte, na UFMG, e em São Paulo, na USP, para lançar O camelô.

 

O senhor afirma que as bases materiais para a leitura de massa surgem em meados do século XIX, com o folhetim, os jornais e revistas populares, bem como os romances a preços baixos. Como elas se tornariam os germes da cultura midiática? 

Jean-Yves Mollier. Os germes da cultura midiática estão contida no aparecimento dos faits divers [literalmente, "fatos diversos", em francês, mas que no jargão jornalístico refere-se a acontecimentos pitorescos, inusitados, que geralmente remetem a temas leves, curiosos] e do folhetim na imprensa francesa, no início dos anos 1830. A leitura do jornal passa a ser uma certa obrigação a qual submeteram-se os três quartos dos franceses em 1900 (10 milhões de diários vendidos a cada dia, lidos por 30 milhões entre os 40 milhões de habitantes). 

Por que isto definiria a emergência da cultura moderna?

Mollier. A cultura moderna será cada vez menos greco-latina, sábia e letrada e, cada vez mais, uma cultura fundada através da leitura da imprensa e das mídias.  

O que se modifica com a aculturação das massas, a partir de 1838, com a revolução nas estruturas escolares e o crescente acesso à informação, sobretudo com a diminuição do preço do livro?

 Mollier. A partir deste momento em que a população vai à escola primária, lê o jornal e os folhetins, na literatura, uma fermentação e uma aculturação acontecem.

Como o discurso da “alienação” através dos romances sentimentais ou de aventuras – e depois, do cinema, da televisão, dos computadores e dos videogames – se institui? Por que ele se repete a cada surgimento de uma nova tecnologia e a quem interessa?

Mollier. O discurso das mídias é alienante de uma certa maneira e sinaliza o começo de outra [concorrente]. Ele substitui alienações antigas, tradicionais, de outros, mais sutis, mas impõe também a discussão crítica de novidades, pois o leitor nunca é passivo e nunca adere completamente àquilo que lê.  

O historiador, durante o I Lihed, em 2004

O historiador, durante o I Lihed, em 2004

 O que caracteriza as pesquisas sobre livro e leitura na França entre 1950 e 2008?

Mollier. Quatro fases se sucedem: Febvre e Martin se empreendem primeiramente em um domínio até então deixado aos literários; em seguida, Martin e Chartier lançam a História da edição francesa, apoiando-se em pesquisas numerosas sobre os séculos XVI, XVII e XVIII, mas insuficientes para os séculos XIX e XX, que eu vou dirigir (terceira fase). A quarta será aberta em 2000 com o início de colóquios internacionais e comparativos. 

Quais as principais mudanças nos hábitos de leitura em relação a primeira metade do século XX?

Mollier. A aposta de políticas públicas de leitura é a maior mudança, colocada em 1936 e então recolocada em 1945, mas verdadeiramente realizada depois de 1970. Oito milhões de objetos impressos se encontravam em bibliotecas públicas francesas em 1950, número que chegou a 200 milhões hoje em dia.

Como avaliar qualitativamente esses hábitos? Qual a melhor maneira para não torná-los reducionistas?

Mollier. É muito difícil, através de testes, de questionários inteligentes (é muito raro!), de questões incômodas, íntimas, como o lugar onde deixamos livros nos apartamentos, os livros da mulher, do homem, das crianças etc.

Como as novas tecnologias influenciam e alteram os hábitos de leitura?

Mollier. A tela plana modifica radicalmente a apreensão do texto pelo olhar e mesmo pelo corpo, então a consciência. Do papiro ao livro e à tela plana, não lemos o mesmo texto mesmo se temos a ilusão de que ele não mudou (por exemplo, um diálogo socrático). O suporte material induz modos de recepção diferentes.

A partir da análise da relação autor-editor, tendo como base a correspondência da editora Calmann-Lévy no século XIX, quais as principais contribuições para as instituições literárias?

Mollier. Os arquivos dos editores esclarecem os lados esquecidos do campo literário: do editor, do diretor de coleção, do leitor, na escrita final do volume publicado, as recomendações do livro à imprensa, aos críticos etc.

Quais são as mudanças fundamentais nessa relação ao longo do século XIX?

Mollier. O autor dominava a relação autor-editor (livreiro na época) na época de Voltaire; o editor obteve o poder no início do século XIX e seu poder se fortaleceu no século XX.

E em relação ao século XXI, o que permanece e o que sofreu profundas mudanças?  

Mollier. Num grupo de comunicação (imprensa, rádio, TV, editora), somente os autores midiáticos têm importância. Tudo é feito por eles, poucas coisas pelos outros, abandonados a editores de segunda categoria, exceto quando eles obtêm um sucesso inesperado.

Poderia falar um pouco sobre do que trata o livro O camelô (Edusp), que será lançado no II Lihed?

Mollier. O camelô é uma figura essencial da literatura de rua na França, no fim do século XIX, no mundo árabe-mulçumano, na África hoje em dia e mesmo no Nordeste ou na Bahia onde os cantores de rua, cordelistas, reatam com a tradição dos trovadores.

Publicado em 2004 na França, o livro é lançado no Brasil pela Edusp

Publicado em 2004 na França, o livro é lançado no Brasil pela Edusp

Como o senhor vê a realização do Seminário do Lihed, já que participou do primeiro encontro, em 2004?

Mollier. O II Seminário vai sintetizar os progressos de pesquisas efetuadas desde o I e abrir ainda mais a comparação internacional.

Poderia falar sobre os compromissos que terá no Brasil depois do II Lihed, em Sao Paulo e Belo Horizonte?

Mollier. Irei 15 de maio a Belo Horizonte e darei conferências na Universidade Federal de Minas Gerais e, em seguida, em 22 e 23 de maio, irei à Universidade de São Paulo dar outras conferências pela ocasião da publicação do meu livro O camelô (Edusp), em português.

 

Apresentação

abril 21, 2009

Olá,

o blog Por dentro do II Lihed vai trazer entrevistas, textos, notas e comentários sobre o II Seminário Brasileiro Livro e História Editorial, que acontece entre 11 e 15 de maio, no Rio de Janeiro e Niterói.

Segundo Aníbal Bragança, coordenador geral, o seminário “expressa o desenvolvimento da área multidisciplinar de estudos do livro e da leitura, em sua complexidade, da formação acadêmica dos profissionais do mundo editorial e livreiro até à produção conceitual e teórica de seus pesquisadores, em suas diferentes abordagens e disciplinas”. 

O lema “Cultura letrada no Brasil: avanços, crises e perspectivas” tem como intuito “estimular os estudos da formação e desenvolvimento da cultura letrada, especialmente no Brasil, e suas relações com as culturas orais e tradicionais e as interações com a cultura audiovisual e digital. Busca também conhecer os desafios colocados às práticas da cultura letrada diante da emergência na contemporaneidade de novas dinâmicas sociais, de construção de subjetividades e de práticas educacionais possibilitadas por novas tecnologias de informação e comunicação”, acrescenta Bragança.

Entre os convidados, os franceses Roger Chartier, Jean-Yves Mollier, Diana Cooper-Richet, Frédéric Barbier, Jean-François Botrel, Michel Melot e André Vauchez, a portuguesa Manuela Domingos, o argentino Gustavo Sorá, além de Eliana Dutra, Márcia Abreu, Alessandra El-Far e Tania Maria Bessone, entre outros.


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